quarta-feira, janeiro 19, 2005


Design para pensar vs. o excesso de informação

Opinião na contramão: o webdesign precisa se revitalizar para ser potencialmente criativo, envolto num véu de mistério, de vitalidade, de força, de ilusão necessária, de cegueira, de parcialidade.

Marcos Nähr

“Suspeito, entretanto, que (Funes) não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair.” (Funes, o Memorioso, Ficções, Jorge Luis Borges).

Recentemente, lendo um livro sobre memória me deparei com um comentário sobre o conto Funes, O Memorioso, de Jorge Luis Borges.

Neste conto Borges descreve um personagem, Irineu Funes, que a partir de um certo momento da vida passa a contar com uma memória perfeita, ou seja, tem a capacidade de lembrar absolutamente tudo. Consegue captar os pormenores de tudo que vivencia, sendo capaz de relembrar todos os detalhes, por mais insignificantes que possam parecer. Podia relembrar nos mínimos detalhes um dia inteiro de sua vida, mesmo que para isto levasse outro dia inteiro, até o último segundo.

No entanto o que me chamou a atenção em Funes não foi sua maravilhosa capacidade de memorizar, mas sim sua “incapacidade de esquecer”.

“Para pensarmos precisamos necessariamente generalizar, e para tal é necessário esquecer”. (A Memória de Borges, Virgílio Fernandes Almeida).

Trazendo este relato para o mundo do design, nos damos conta de que a internet está cada vez mais parecida com Funes. A quantidade de detalhes e o excesso de informação dos sites atuais sufocam os usuários. A maioria dos sites atuais oprime e confunde, tornando as informações descontínuas e fragmentadas.

“Suspeito, contudo, que (Funes) não era capaz de pensar... No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes...”. (Funes, o Memorioso, Ficções, Jorge Luis Borges).

Os webdesigners precisam se dar conta de que não precisam “mostrar tudo” para os usuários, abarrotá-los de informações e detalhes, já que estes serão esquecidos com a mesma facilidade com a qual foram percebidos.

“... (o homem) acaba por arrastar consigo, por toda a parte, uma quantidade descomunal de pedras indigestas de saber, que ainda, ocasionalmente, roncam na barriga...” (Considerações Extemporâneas, Nietzsche

A memória do homem é naturalmente seletiva. Os seres humanos possuem uma capacidade incrível de ver o mundo, completamente diferente do modo com o qual Funes o fazia. Temos até a capacidade de olharmos em alguma direção e ver o que não está lá.

Nada se assemelha mais ao pensamento humano do que o hiperlink. Nele, contrariamente do modelo cumulativo de Funes, apenas conectamos, cruzamos, escorregamos, navegamos.

O webdesign precisa se revitalizar neste sentido, ser potencialmente criativo, envolto num véu de mistério, de vitalidade, de força, de ilusão necessária, de cegueira, de parcialidade.

O webdesign precisa voltar a fazer o usuário pensar! [Webinsider]

posted by Iris • IFD @ 8:17 PM



 

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