sexta-feira, maio 05, 2006


O corpo humano em liquidação: o sexo no mercado

A propaganda existe por causa da concorrência entre marcas de produtos que desejam seduzir o mesmo consumidor. Quanto maior a competição, maior o volume de anúncios e maiores os investimentos em comunicação e marketing.

Um produto monopolista não precisa fazer anúncios, a não ser os do chamado "good will", para fazer média com as autoridades, o povo e os meios financeiros. São os anúncios em que as empresas louvam a si mesmas e propagam o que de bom andaram fazendo ou pretendem fazer.

No mercado de livre concorrência, a briga é tão feia que, além das mercadorias, os próprios anúncios competem uns com os outros para conquistar a atenção do consumidor. Sempre que um anúncio é veiculado, está disputando o olhar do público com outros anúncios, com o próprio noticiário e também com reportagens e os apelos diversos que estão presentes na mídia.

Ninguém se senta diante do televisor ou abre um jornal ou revista para ver anúncios. É preciso, pois, que o anúncio primeiro venda a si próprio, para conseguir vender o produto que anuncia.

Por isso o anúncio precisa ter força para chamar e prender a atenção do leitor/ouvinte/espectador e, atualmente e cada vez mais, também a atenção do mouse do computador.

Esta é a razão de a criatividade ser tão valorizada na propaganda. A necessidade de criar peças originais, capazes de chamar e prender a atenção, é o que faz a propaganda empregar e valorizar artistas e criativos não apenas em seus departamentos de criação.

A cultura criativa deve permear toda a atividade da moderna agência de propaganda. Mesmo as agências que se definem como estratégicas, capazes de posicionar com perfeição um produto no mercado, precisam apresentar peças criativas memoráveis. Se não forem capazes de oferecer brilhante ou pelo menos adequado material criativo, suas campanhas perdem substância, passam despercebidas e, com o tempo, essas agências acabam por perder os seus clientes.

Na procura de temas que conquistem o consumidor, as pesquisas, a experiência e a observação dos seres humanos ensinaram como são fortes os apelos que se dirigem aos instintos e aos sentidos. Uma peça que provoque o instinto de sobrevivência, o erotismo ou o prazer hedonista tem sempre a eficiência de uma nova surpresa.

A indústria de alimentos desperta o apetite quando apresenta seus pratos deliciosamente fotografados e decorados; as companhias de seguro mobilizam clientes quando falam da segurança da família ou do patrimônio e a as fábricas de bebidas prometem a intensidade do prazer. As pessoas olham, têm desejo e compram.

O que foi dito acima não é uma relação de regras para se fazer propaganda, apenas uma introdução para falar sobre sexo.

Um dos mais fortes argumentos publicitários tem sido o sexo, nas suas formas de sensualidade, desejo e erotismo, o que tem provocado uma interminável discussão sobre o bom e o mau gosto, o moral e o imoral, o erótico e o debochado. Embora as sociedades tenham se tornando mais abertas e tolerantes, sexo ainda provoca surpresa quando apresentado na mídia, seja em suas formas sutis ou explícitamente pornográficas.

Em paralelo a sua utilização como recurso publicitário, o sexo tonou-se, ele próprio, um produto industrial explorado com as mesmas técnicas de marketing utilizadas por todos os produtos existentes no mercado.

O sexo como mercadoria é tão antigo como a mais antiga das profissões. Mas recebeu tratamento moderno, compatível com a era do marketing, desde o aparecimento das primeiras revistas eróticas vendidas ostensivamente nas bancas. Primeiro nos Estados Unidos, que como sempre antecipam as grandes modificações de comportamento que vão ocorrer em todo o mundo, para depois se transformar numa indústria globalizada, faturando mais de meio trilhão de dólares a cada ano.

Derivado da própria sexualidade humana, o sexo como produto surgiu, paradoxalmente, como consequência da repressão sexual. Passou, usando como exemplo o Brasil, da fase artesanal representada pelo talento incomum de um Carlos Zéfiro para os canais de televisão especializados no tema, como é o caso de Playboy e Sex Hot.

As revistinhas de Zéfiro eram vendidas na clandestinidade, apreendidas pela polícia e preenchiam a solidão e a fantasia de adolescentes e adultos. Muitos donos de bancas de jornais foram presos e processados por atentado ao pudor, por venderem produto ilegal e perseguido. Os padrões de tolerância da sociedade estavam longe da sofisticada presença dos canais eróticos da Net ou da TVA, que apresentam uma produção de matéria sexual explícita e acabada, embalada e distribuida com técnicas industriais.

A poderosa indústria do novo sexo oral, o sexo por telefone, tem trazido dores de cabeça para os pais e problemas para os púberes e adolescentes que varam a madrugada escutando as excitantes palavras das mulheres sem rosto emitidas de Hong Kong, da Holanda ou da Dinamarca.

As enormes contas de telefone que assustam os pais são derivadas dos anúncios desse novo produto - sexo por telefone - veiculados na televisão e nas revistas eróticas. E os meninos purgam a culpa, não pela curiosidade sexual própria da idade e estimulada pela propaganda, mas pelo tamanho das faturas das chamadas telefônicas que eles ignoravam que fossem de ligações para países tão distantes.

A Internet deu novo e enorme impulso ao marketing do sexo como produto. Os sites especializados cobram ingresso e faturam alto, o e-commerce vende todos os acessórios que as fantasias eróticas puderem imaginar. A agressividade dessa indústria na Internet é capaz de invadir listas indiscriminadas de e-mails e, sem pedir autorização, enviar convites para festins libidinosos a castos sacerdotes.

Como todos os produtos, o sexo foi comercializado porque existia uma demanda claramente identificada, portanto um mercado comprador à espera do produto. Os investimentos foram feitos como em qualquer atividade industrial, desde a compra da matéria prima - o corpo humano - à identificação dos corretos canais de distribuição e comunicação. A propaganda foi usada para disseminar o conceito desse produto que havia crescido na ilegalidade e na clandestinidade e que passou a ser tolerado, como reação social a anos de repressão.

Junto com a tolerância da sociedade, convive a preocupação com a crescente disseminação do sexo comercializado pela mídia. Os padrões morais em vigência debatem o assunto, condenam e buscam soluções, talvez sem atentar que, desde a Idade Média, nenhum preconceito moral ou mesmo a religião teve força suficiente para vencer uma mercadoria.
O corpo humano é uma mercadoria. As próximas a serem lançadas vão ser as almas em liquidação.


autor: Celso Japiassu
fonte: http://www.umacoisaeoutra.com.br

posted by Iris • IFD @ 11:33 AM

1 Comments:

Anonymous corpo humano said...

bacana...

11:42 AM

 

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